Patrick Matos Freitas Coordenador Geral da APTAFURG

 

Existe hoje uma disputa silenciosa, mas profunda, atravessando a vida da classe trabalhadora brasileira. Ela não aparece com destaque nos indicadores econômicos nem nos debates superficiais que a mídia costuma fazer sobre produtividade. Trata-se de algo mais fundamental: a disputa pelo tempo de vida.

A mobilização crescente pelo fim da escala 6×1 revela essa contradição em sua forma mais concreta. Ǫuando trabalhadores afirmam que “não têm vida”, não estão exagerando — estão descrevendo com precisão a realidade de um sistema que avança sobre cada minuto disponível. O que está em jogo já não é apenas o salário ou o emprego, mas o controle sobre o próprio tempo.

A escala 6×1 expressa isso de forma brutal. Trabalhar seis dias por semana significa, na prática, entregar quase toda a existência ao trabalho. O tempo fora da jornada formal — deslocamentos, cuidados domésticos, responsabilidades familiares — também está subordinado às exigências da sobrevivência. O resultado é uma vida comprimida, reduzida a intervalos mínimos de descanso entre um turno e outro.

Mas esse processo não é isolado. Ele se conecta a uma lógica mais ampla, característica do capitalismo contemporâneo, especialmente em sua fase neoliberal. Vivemos sob uma cultura que naturaliza a disponibilidade permanente, transforma descanso em culpa e celebra a exaustão como sinal de valor.

Não se trata apenas de exploração econômica direta. Trata-se de uma forma de organização da vida em que o trabalhador é levado a se enxergar como responsável individual por dar conta de tudo — mesmo quando isso é impossível. A sobrecarga deixa de parecer um problema coletivo e passa a ser vivida como falha pessoal. O cansaço vira vergonha. A pausa vira improdutividade.

Essa lógica é funcional ao sistema. Um trabalhador exausto tem menos tempo e energia para refletir, questionar e se organizar. A ausência de tempo livre não é um efeito colateral — é parte do mecanismo de controle.

Por isso, a luta pela redução da jornada de trabalho tem um significado que vai muito além de uma pauta econômica. Ela é, essencialmente, uma luta por dignidade, por saúde e por autonomia.

A história mostra que nenhuma jornada de trabalho foi “concedida” espontaneamente. Cada redução — das jornadas extenuantes da Revolução Industrial até os limites atuais — foi resultado de luta coletiva. E sempre

acompanhada pelo mesmo discurso patronal: o de que reduzir a jornada destruiria empregos e inviabilizaria a economia. A experiência histórica, no entanto, demonstra o contrário. A redução da jornada está associada à reorganização produtiva, ao avanço tecnológico e à melhoria das condições de vida.

A luta pelo fim da escala 6×1, protagonizada por trabalhadores da iniciativa privada, dialoga diretamente com a pauta dos servidores públicos. No caso dos Técnicos Administrativos em Educação, a reivindicação pelas 30 horas semanais não é um privilégio — é parte da mesma luta estrutural pela redistribuição do tempo social.

Enquanto na iniciativa privada se combate a jornada exaustiva de seis dias, no serviço público se enfrenta a intensificação do trabalho, o adoecimento e a sobrecarga decorrentes de anos de redução de pessoal e aumento de demandas. São expressões distintas de um mesmo problema: a apropriação do tempo de vida pelo trabalho.

A pauta das 30 horas, defendida pelos TAE e presente na nossa greve de 2026, responde a essa realidade. Ela não é apenas uma medida administrativa — é uma afirmação de que o trabalho não pode consumir integralmente a existência dos trabalhadores.

Mais do que isso: ela aponta para um projeto de sociedade em que o tempo livre, o descanso, a convivência e a reflexão não sejam tratadas como luxo, mas como direitos.

É por isso que essa luta exige unidade. A fragmentação entre trabalhadores do setor público e privado interessa apenas a quem se beneficia da exploração. Ǫuando uma trabalhadora do comércio luta contra a escala 6×1, ela está enfrentando o mesmo sistema que impõe sobrecarga aos servidores públicos. Ǫuando um TAE reivindica 30 horas, está contribuindo para fortalecer a ideia de que a vida não pode ser subordinada integralmente ao trabalho.

A luta pelo tempo é, portanto, uma luta comum. Unificar essas pautas é um passo estratégico. Significa compreender que a redução da jornada — seja para 40 horas na iniciativa privada, seja para 30 horas no serviço público — faz parte de um mesmo movimento histórico de enfrentamento à intensificação da exploração.

Significa também recuperar algo fundamental: a capacidade coletiva de dizer que a vida não pode ser reduzida ao trabalho. A disputa pelo tempo é, no fundo, a disputa pelo direito de viver. E essa é uma luta que diz respeito a toda a classe trabalhadora.