{"id":4439,"date":"2023-06-20T15:35:36","date_gmt":"2023-06-20T18:35:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aptafurg.org.br\/novo\/?p=4439"},"modified":"2023-06-20T15:35:39","modified_gmt":"2023-06-20T18:35:39","slug":"procusto-nas-vidas-lgbtqia-discriminacao-e-insustentabilidade-da-sustentabilidade%ef%bf%bc","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aptafurg.org.br\/novo\/procusto-nas-vidas-lgbtqia-discriminacao-e-insustentabilidade-da-sustentabilidade%ef%bf%bc\/","title":{"rendered":"Procusto nas Vidas LGBTQIA+: Discrimina\u00e7\u00e3o e Insustentabilidade da Sustentabilidade\ufffc"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Renato Zacarias Silva<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Bi\u00f3logo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Doutor em Oceanografia Biol\u00f3gica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>T\u00e9cnico Administrativo em Educa\u00e7\u00e3o &#8211; Zoologia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Somos uma esp\u00e9cie muito intrigante. Segundo a Antropologia, nossos ancestrais proto-humanos conseguiram existir e evoluir para o que (e quem) somos hoje gra\u00e7as ao surgimento, aprimoramento e sele\u00e7\u00e3o de aspectos nobres como a <strong>linguagem<\/strong> e a <strong>empatia<\/strong>. Estas duas caracter\u00edsticas permitiram aos proto-humanos que ambas se refor\u00e7assem mutuamente, atrav\u00e9s da troca de experi\u00eancias, de tecnologias e do compartilhar de culturas pela socializa\u00e7\u00e3o. Este cen\u00e1rio fortaleceu nossos proto-humanos como um grupo coeso de fr\u00e1geis primatas humanoides (sem grandes avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos) diante de predadores com armas biol\u00f3gicas muito mais eficientes do que os nossos modestos dentes e unhas. Cuidar, zelar e respeitar uns aos outros como um coletivo, aparentemente, fez toda a diferen\u00e7a para chegarmos at\u00e9 aqui como esp\u00e9cie. Sem a empatia da ancestralidade Humana, estar\u00edamos extintos h\u00e1 muitos milhares de anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas parece que algo se perdeu no percurso, desde os tempos proto-humanos, at\u00e9 a contemporaneidade.&nbsp; O avan\u00e7ar da <strong>humanidade<\/strong> rumo a atual <strong>Sociedade do Conhecimento<\/strong> (ou <strong>Sociedade das Tecnologias da Informa\u00e7\u00e3o<\/strong>) parece demonstrar que o <strong>Saber<\/strong> n\u00e3o faz evoluir civilizat\u00f3ria e civilizadamente.&nbsp; Nosso ac\u00famulo de saber e das dolorosas e delet\u00e9rias viv\u00eancias \u00e9tnico-sociais (guerras) que tivemos (e temos) para as liberdades e direitos conquistados, hist\u00f3rica e cientificamente, se prestam muito bem no papel e (na pr\u00e1tica) para poucos. Esta mesma sociedade vocifera aos ventos e aos quatro cantos do mundo sobre a import\u00e2ncia da <strong>inclus\u00e3o<\/strong> e da <strong>toler\u00e2ncia<\/strong> (nas suas diversas dimens\u00f5es). Em contrapartida, o quadro geral desta sociedade do \u201cconhecimento\u201d mostra enorme regresso sobre os direitos sociais e humanos, que se refletem no aumento do racismo, da intoler\u00e2ncia generalizada, da misoginia, do machismo e masculinismo e, consequentemente, da LGBTQIA+fobia. A empatia (importante agregador e protetor social) parece esmaecida, desbotada, an\u00eamica na nossa sociedade. Temos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos e cient\u00edficos surpreendentes como, ir para a Lua, vasculhar a superf\u00edcie de Marte, aprimorar a agricultura, investigar as profundezas dos oceanos, desenvolver medicamentos e vacinas&#8230; Tudo isto \u00e9 lindo! Mas o panorama mostra que todas estas conquistas cient\u00edficas n\u00e3o refor\u00e7aram os processos emp\u00e1ticos e civilizat\u00f3rios da nossa esp\u00e9cie e que o tecido coeso social se desfaz diante de nossos olhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais al\u00e9m, a ci\u00eancia mostra que a <strong>sustentabilidade do planeta<\/strong> depende de muitos fatores, tais como, do respeito \u00e0 <strong>pluralidade<\/strong> e \u00e0 <strong>diversidade individual<\/strong> e <strong>coletiva<\/strong> (\u00e9tnica, racial, social, cultural), do direito \u00e0 sa\u00fade, da erradica\u00e7\u00e3o da pobreza, do empoderamento feminino, dos direitos de exist\u00eancia e perman\u00eancia, do respeito aos direitos humanos, da supera\u00e7\u00e3o da injusti\u00e7a social, da dimens\u00e3o socioambiental em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o, do respeito \u00e0 diversidade sexual para o desenvolvimento da Cidadania Planet\u00e1ria. Nossa \u201csociedade do conhecimento\u201d est\u00e1 pronta para aquilo diz serem as bases da sustentabilidade? Os t\u00f3picos discriminados apontam para um t\u00eanue verniz do discurso social inclusivo, mas que respinga com tons aberrantes, dolorosos, delet\u00e9rios, antip\u00e1ticos, violentos e antissustent\u00e1veis sobre a pluralidade e diversidades humanas, em especial sobre os LGBTQIA+. As atitudes segregacionistas, moduladoras, assediantes e antissustentabilidade que tentaram (e ainda tentam) homogeneizar os comportamentos das vari\u00e1veis naturais da sexualidade Humana (em suas infinitas express\u00f5es) est\u00e3o dentro do <strong>Espectro de Procusto<\/strong>, que representa a intoler\u00e2ncia do ser humano sobre seu semelhante. Mas quem foi esta figura mitol\u00f3gica arquet\u00edpica? Procusto era um bandido que vivia numa floresta, na Serra de El\u00eausis. Ele possu\u00eda uma cama de ferro (que tinha o tamanho exato do seu corpo) e convidava, hospitaleiramente, os viajantes que passavam por perto da sua casa a se deitarem nela para descansar. Os h\u00f3spedes, se fossem maiores do que a cama eram, torturantemente, amputados nas propor\u00e7\u00f5es que sobravam e aqueles menores eram esticados at\u00e9 o tamanho da cama. Mas as v\u00edtimas nunca se ajustavam a cama dele. Ele tinha, secretamente, outras duas camas de tamanhos diferentes e as usava de acordo com suas necessidades de ajustar seus h\u00f3spedes aos seus moldes. Todavia, o her\u00f3i ateniense Teseu (em sua \u00faltima aventura) capturou Procusto e o submeteu ao seu pr\u00f3prio suplicio de ajuste as suas camas, por fim, cortando sua cabe\u00e7a e p\u00e9s.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, quando os LGBTQIA+ podem se deparar com Procusto em suas vidas? Em diversas atitudes e falas daqueles que est\u00e3o perto, que fazem (ou n\u00e3o) parte de suas vidas em ass\u00e9dios constantes, mutiladores e humilhantes que dep\u00f5em contra a liberdade identit\u00e1ria em seus pluralismos. Quem dentro dos LGBTQIA+ nunca passou por situa\u00e7\u00f5es de (des)tratamento, como segue: Voc\u00ea poderia ser mais discreto&#8230; \u00c9 desnecess\u00e1rio voc\u00eas demonstrarem afeto em p\u00fablico&#8230; Nossa! Como voc\u00ea \u00e9 afeminado!&#8230; Onde voc\u00ea comprou esta roupa n\u00e3o tinha para homem?&#8230; Enquanto viver sob o meu teto e comer da minha comida vai se comportar como eu quero!&#8230; Sabe porque voc\u00ea apanhou? Porque voc\u00ea d\u00e1 muita pinta!&#8230; Aqui n\u00e3o \u00e9 lugar para viado!&#8230; Meninas vestem rosa e meninos vestem azul&#8230; Estas verbaliza\u00e7\u00f5es (e a\u00e7\u00f5es) s\u00e3o a pura manifesta\u00e7\u00e3o do <strong>ass\u00e9dio moral<\/strong> constante contra os LGBTQIA+. Mas o verbo (a linguagem) representa a manifesta\u00e7\u00e3o consciente de uma proje\u00e7\u00e3o atitudinal materializada e que coloca (ou tenta colocar) os LGBTQIA+ novamente nos guetos do passado, na marginalidade social, sob Procusto.&nbsp; Como a sociedade \u201cProcustonizadora\u201d coloca os LGBTQIA+ nestes guetos? Por exemplo, negando seu acesso ao progresso de forma\u00e7\u00e3o profissional quando um professor universit\u00e1rio n\u00e3o quer orientar um p\u00f3s-graduando LGBTQIA+ pois ele n\u00e3o se encaixa no perfil de pessoa que o professor quer em sua equipe; dificultando o acesso dos LGBTQIA+ a uma vaga de concurso p\u00fablico para docente universit\u00e1rio quando a banca de avalia\u00e7\u00e3o, antieticamente, lhe d\u00e1 notas (nas Provas e T\u00edtulos) inferiores \u00e0quela dos candidatos heterossexuais menos qualificados; quando se quebra uma l\u00e2mpada fluorescente no rosto de um cidad\u00e3o LGBTQIA+ enquanto ele passeia por uma avenida negando seu direito de ir e vir (e existir); negando seus <strong>Princ\u00edpios e Objetivos da Sustentabilidade<\/strong> quanto \u00e0 <strong>Diversidade de G\u00eanero e de Identidade Sexual<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>E quem pode representar o Teseu nestes contextos? As <strong>Pol\u00edticas P\u00fablicas<\/strong>. <em>A priori<\/em>, o ideal \u00e9 ter em mente este <strong>Teseu <\/strong>como <strong>n\u00e3o-Tali\u00f4nico<\/strong> (fora do contexto \u201colho por olho, dente por dente\u201d). As pol\u00edticas p\u00fablicas n\u00e3o est\u00e3o (ou s\u00e3o) para amputar ou esticar a sociedade n\u00e3o-LGBTQIA+ para os moldes de uma cama de ferro LGBTQIA+.&nbsp; Na esfera p\u00fablica, h\u00e1 exemplos importantes do reconhecimento dos direitos civis dos LGBTQIA+ para o resgate da dignidade, da cidadania e conviv\u00eancia, abrindo caminhos na educa\u00e7\u00e3o (cotas para pessoas Trans no Ensino Superior), na sa\u00fade (Pol\u00edtica Nacional de Sa\u00fade Integral de L\u00e9sbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais; Processo Transexualizador do Sistema \u00danico de Sa\u00fade \u2013 SUS na modalidade ambulatorial e acolhimento),&nbsp; civil (direito a ado\u00e7\u00e3o e ao casamento civil; pens\u00e3o por morte de c\u00f4njuge homoafetivo; declara\u00e7\u00e3o de conjuge homoafetivo como dependente no plano de sa\u00fade e no imposto de renda), dentre outros. As pol\u00edticas p\u00fablicas existem para conscientizar e incentivar a toler\u00e2ncia, elucidando a sociedade que n\u00e3o h\u00e1 necessidade de moldar o outro de acordo com seu umbigo social. Isto porque tememos aquilo que n\u00e3o conhecemos. Quando conhecemos, n\u00e3o temos medo do infundado espelhamento do \u201cdiferente\u201d do outro no meu ser, porque o \u201cdiferente\u201d n\u00e3o \u00e9 diferente, ele simplesmente \u00e9! Infelizmente, muitas vezes (ou na maioria delas) as pol\u00edticas p\u00fablicas t\u00eam que ser aplicadas como um <strong>Teseu Tali\u00f4nico<\/strong>, fazendo valer os direitos LGBTQIA+ em batalhas judiciais, buscando atingir aquela m\u00e1xima da nossa <strong>Constitui\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3 de 1988: todos s\u00e3o iguais perante a lei e tem direito, sem qualquer distin\u00e7\u00e3o, a igual prote\u00e7\u00e3o da lei<\/strong>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Renato Zacarias Silva Bi\u00f3logo Doutor em Oceanografia Biol\u00f3gica T\u00e9cnico Administrativo em Educa\u00e7\u00e3o &#8211; Zoologia Somos uma esp\u00e9cie muito intrigante. Segundo a Antropologia, nossos ancestrais proto-humanos conseguiram existir e evoluir para o que (e quem) somos hoje gra\u00e7as ao surgimento, aprimoramento e sele\u00e7\u00e3o de aspectos nobres como a linguagem e a empatia. 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